Hamurabi

Por Gustavo Bessa

Nesses últimos dias, eu tenho lido alguns comentários que têm sido feitos sobre a comemoração do Natal. A maioria das pessoas condena a comemoração do Natal, dizendo que Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro e que o Natal é uma festa de origem pagã. De fato, Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro, pois, uma vez que os pastores estavam guardando as ovelhas no campo aberto, só podemos concluir que Jesus não nasceu no inverno!

 

Sabe-se também que os pagãos comemoravam o nascimento do deus sol no dia 25 de dezembro, e que os cristãos fizeram uma releitura dessa data para ensinar aos pagãos que Jesus, o Filho de Deus, o Sol da Justiça, desceu dos céus e sobrenaturalmente nasceu de uma virgem. Os cristãos, portanto, esvaziaram o significado do deus-sol e atualizaram o significado do dia 25 de dezembro, usando essa data como uma ponte para anunciar o evangelho.

 

Entretanto, muitas pessoas questionam essa atitude dos cristãos! Dizem que, porque o dia 25 de dezembro era, anteriormente, uma data em que se comemorava uma festa pagã, não podemos celebrar o nascimento de Jesus nessa data. Eu estranho esse tipo de comentário, pois ele me parece ser muito mais islâmico do que cristão. O islamismo é que impede os muçulmanos de fazerem qualquer tipo de contextualização da mensagem. Tanto assim que o islamismo só considera como palavra de Deus o Alcorão escrito em Árabe. Para eles, Deus não fala outra língua, senão o Árabe.

 

Mas nós cristãos cremos de maneira diferente. Cremos que Deus não está limitado ao Hebraico. Deus se comunica em Hebraico, Aramaico, Grego, Latim, Português, Inglês, Chinês e tantas quantas forem as línguas do mundo. Cremos que podemos contextualizar a mensagem para que as outras pessoas entendam o que comunicamos. Cremos que muitos elementos de culturas pagãs podem ser esvaziados de seus antigos conceitos e podem ser atualizados, recebendo conceitos cristãos.

 

Dessa maneira o povo de Israel construiu o Tabernáculo no deserto! Eles usaram o ouro, a prata, o bronze, as pedras e os tecidos que os pagãos egípcios lhes haviam dado. Eles pegaram esse material, que antes era pagão, e usaram esse material para construir a Tenda do Encontro! Eles esvaziaram esse material do conteúdo anterior e atualizaram esses objetos com novos conceitos!

 

Dessa maneira, usando a contextualização, ao entrar na terra, o povo de Israel fez uma releitura das festas pagãs. Os pagãos celebravam a festa da colheita, a festa dos primeiros frutos e daí por diante! O povo de Israel não ignorou e desprezou essas datas. Antes, os israelitas esvaziaram essas festas dos seus conteúdos pagãos e atualizaram, por causa de Deus, o conteúdo dessas festas, introduzindo a mensagem salvífica do Senhor nesses momentos! Muitas festas do povo de Israel são, na verdade, releituras de festas pagãs.

 

Mas alguém pode dizer: “Isso aconteceu no Antigo Testamento! Mas o que o Novo Testamento tem a dizer sobre isso?” Em que língua o Novo Testamento foi escrito? Hebraico? Aramaico? Não! Grego! Uma vez que Deus quer que todas as pessoas ouçam o evangelho, Ele decidiu contextualizar a mensagem e proclamar o evangelho não na língua que Jesus falava, mas na língua que a maior parte da população falava! Assim, Paulo fez uma releitura de diversos termos gregos. Ele utilizou palavras gregas que eram usadas nos cultos pagãos, esvaziou esses termos dos seus antigos conceitos, introduziu conceitos cristãos àquelas palavras e, com essas palavras atualizadas, ele pregou o evangelho! Ele não desprezou ou ignorou essas palavras, mas usou-as como pontes para anunciar o evangelho!

 

Contudo, o maior exemplo de contextualização é Jesus. Ao invés de permanecer falando-nos do céu ou do alto de uma montanha fumegante, Deus assumiu todos os limites e fragilidades de um corpo humano (menos o pecado) com o propósito de nos anunciar o evangelho da graça e da verdade. O Verbo se fez Carne e habitou entre nós! Deus não destruiu pontes, mas usou-as para que nós conseguíssemos ouvir e entender a mensagem do evangelho. Assim, Jesus nasceu em uma manjedoura, passou alguns anos no Egito, cresceu como carpinteiro em Nazaré, viajou pelas estradas romanas, visitou cidades pagãs (Decápolis), comeu com publicanos e pecadores, conversou com as pessoas, usou o dinheiro de Roma para pagar os impostos e nos fez conhecer o evangelho de Deus. Deus trouxe dignidade ao ser humano e usou os diversos elementos da cultura (língua, objetos, artefatos etc) para nos fazer conhecer a mensagem da salvação.

 

Vendo o modo como Deus sempre agiu no mundo em relação aos povos e as culturas, eu não entendo como tantas pessoas questionam a comemoração do nascimento de Jesus no dia 25 de dezembro! Ou elas ignoram o modo como Deus agiu no mundo, em relação ao uso das culturas, para proclamar o evangelho. Ou elas não aceitam que se use a cultura como ponte para anunciar a mensagem de Deus; e, assim, elas mesmas, por causa disso, só conversam em Hebraico.

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