2011-10-07 20.01.52

 

Por Gustavo Bessa

 

Eu sempre tive dificuldades para começar a escrever. As ideias simplesmente teimam em não aparecer. Parece que elas fogem de mim como quem está brincando de pega-pega. Quanto mais eu tento alcança-las, mais rapidamente elas se escondem. A minha vontade é desistir, fechar o computador e me ocupar com outras atividades. Mas eu sei que não posso desistir. Eu preciso mostrar para mim mesmo e para as ideias que o caminho mais fácil nem sempre é o melhor caminho. O melhor caminho é sempre o caminho da obediência perseverante. Quanto mais fortemente somos tentados a desistir no meio do caminho, mais intensamente precisamos buscar forças em Deus para perseverar. No fim, Deus nos leva ao lugar de onde nunca poderíamos ter saído: o lugar da dependência dEle.

 

Alguns podem chamar isso de fatalismo: o homem é simplesmente um robô incapaz de fazer escolhas livres. Eu não chamo isso de fatalismo apesar de ainda não conhecer um nome para conceituar essa ideia. Sei que, ao mesmo tempo em que Deus é totalmente poderoso e soberano, o ser humano é totalmente livre e responsável. Deus permanece assentado no trono, governando sobre tudo e sobre todos; e o homem permanece fazendo as suas escolhas com liberdade e responsabilidade. Se me perguntarem como acontece essa interação entre a soberania de Deus e a liberdade do homem, tranquila e confiantemente responderei que não sei. Eu não consigo entender muitas coisas. Essas coisas que não entendo, eu as chamo de mistério.

 

Antes, eu tinha muita dificuldade com o mistério. Eu achava que todo mistério existia para ser desvendado e explicado. Eu achava que a minha razão era capaz de resolver todos os problemas. Hoje eu não penso mais assim. Os meus óculos teológicos foram sendo ajustados à medida que eu vivia novas experiências, lia a Bíblia, conversava com outras pessoas, lia livros e participava da celebração e comunhão da igreja. Durante essa jornada, fui levado a reconhecer e reconheci os meus limites. Existem coisas que estão à nossa volta para serem descobertas; mas existem outras que estão à nossa volta para nos lembrarem dos nossos limites.

 

Os mistérios existem. Deus os criou para serem os nossos pedagogos. Os mistérios nos confrontam todos os dias e nos fazem saber que jamais teremos todo o conhecimento. Somos limitados. Somente Deus é ilimitado, infinito e todo-poderoso. Somente Deus sabe todas as coisas e conhece todos os mistérios. Eu e você não. Somos frágeis e limitados. Nós somos pó! E por mais que queiramos conhecer todas as coisas, em muitas ocasiões, as ideias e as revelações simplesmente se escondem de nós.

 

O apóstolo Paulo nos ensinou a atitude correta diante do mistério de Deus. Quando ele se defrontou com beleza e complexidade do plano de Deus para a salvação do ser humano, ele exclamou em adoração a Deus: “Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e inescrutáveis os seus caminhos! Quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Quem primeiro lhe deu, para que ele o recompense? Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre! Amém” (Romanos 11.33-36 – NVI).

 

A “linha de chegada” da nossa corrida cristã sempre passa por esse lugar do mistério, do reconhecimento dos nossos limites, da dependência de Deus e da obediência perseverante. Mesmo que não tenhamos todo o conhecimento, sabemos que Deus não somente tem todo o conhecimento, mas também nos ama e se revela a nós. Quando ouvimos a voz de Deus, chamando-nos para dar um passo em direção ao nosso futuro, mesmo que não conheçamos todo o percurso da jornada, podemos seguir em frente. Caminhamos por lugares desconhecidos por nós, mas totalmente conhecidos por Deus. Caminhamos por causa da nossa obediência perseverante. Assim, enquanto dependemos de Deus e seguimos adiante, não somente a nossa vida passa por mudanças, mas também os nossos óculos teológicos são ajustados. Passamos a ver o mundo à nossa volta com novos olhos e com um novo coração. Descobrimos que, mesmo que tenhamos dificuldades para começar um texto ou para continuar escrevendo, não podemos desistir jamais. Deus, para quem não existem mistérios, está conosco!

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