dezembro 2015

23/12

A liberdade tem limites?

Postado dia 23 de dezembro de 2015

(Esse texto foi uma pregação que fiz há alguns anos atrás. Por que ele está em formato de sermão, ele é maior do que os textos anteriores. Espero que você consiga ler até o fim :-) )

Gustavo Bessa

Introdução

Algumas pessoas são conhecidas enquanto estão vivas. Outras, só são lembradas, depois que já morreram. Esse é o caso de Dietrich Bonhoeffer. Ele foi um dos pastores que lutou contra o regime nazista alemão. A sua briga era contra a escravidão que o nazismo estava impondo às pessoas. A sua luta era contra a manipulação promovida pelo nazismo. Ele não concordava em que a igreja alemã não tomasse uma postura em favor da liberdade. Por isso, ele condenava tanto as igrejas como o governo nazista.

Como cristão, ele queria a liberdade para pregar. E ele queria que outros experimentassem a liberdade. Ele lutava pela liberdade. Apesar de pressionado de tantos lados, por pessoas que o aconselhavam a ficar em silêncio, Bonhoeffer decidiu continuar pregando. Pouco tempo depois, ele foi preso e morto em um campo de concentração.

Infelizmente, a luta de Bonhoeffer não é a luta de muitos outros que se chamam cristãos. Nem todos os que se chamam cristãos lutam pela liberdade. Nem todos os que se chamam cristãos vivem a liberdade. Há muitos que já se acomodaram a alguma situação de não-liberdade. Querem simplesmente continuar vivendo a vida sem muitos percalços ou muitas mudanças. Querem ter o nome de cristãos sem terem que agir como cristãos. Acham que as coisas nunca vão mudar e que é melhor continuar aceitando a não-liberdade.

Entretanto, a não-liberdade jamais é característica do cristão. A Bíblia apresenta o cristão como uma pessoa livre. Apenas os livres é que são cristãos. O retrato do cristão é o de uma pessoa livre: livre das tradições, livre do medo, livre do mundo e livre do pecado. Se você se chama cristão, você precisa ser livre. Em 1Coríntios 9.19-27, o apóstolo Paulo fala sobre isso.

 

1 – Em primeiro lugar, se você se chama cristão, você precisa ser livre;

e

por isso, não ter receio de pregar a todas as pessoas em quaisquer situações ou lugares.

 

Veja o que Paulo diz no v.19: “Porque, embora seja livre de todos”. Essa é a grande afirmação do apóstolo Paulo. Eu sou livre de todos. Na pregação que eu faço, no meu testemunho como cristão, eu sou livre das opiniões; eu sou livre das imposições; eu sou livre das pressões externas.

Essa afirmação de Paulo tinha razão para acontecer. Havia ali, naquela igreja de Corinto, um grupo que tachava as regras de conduta. Eles diziam que ninguém poderia comprar carne no mercado, ninguém poderia participar de festas ou reuniões com incrédulos, ninguém poderia comer com incrédulos. Na verdade, ninguém poderia ter qualquer contato com incrédulos. Esse grupo era muito forte e tinha uma grande influência sobre as pessoas da igreja. Eles estavam querendo controlar a vida e o testemunho das pessoas por meio de suas opiniões e imposições.

 

Atualmente, há muitos cristãos que estão debaixo dessa mesma escravidão.

  1. Há alguns que são escravos das opiniões das outras pessoas. São os crentes políticos. Eles não têm uma convicção pessoal para agir desta ou daquela maneira. Eles fazem ou deixam de fazer as coisas com medo do que as outras pessoas podem dizer. Se ele pensa que a outra pessoa pode brigar com ele se ele agir dessa maneira, então, ele não age dessa maneira. Se ele imagina que o outro pode ficar com raiva se ele falar de um jeito, então, ele não fala. Ele é um cristão político. Parece que está sempre tentando conseguir uns votos diante das pessoas. Ele age de acordo com as opiniões e não de acordo com as convicções. Se as opiniões apontam todas elas em uma direção, ele segue naquela direção. Se as opiniões dizem que todos devem usar o cabelo comprido, ele usa o cabelo comprido e condena a minoria que não usa. Se as opiniões dizem que ele tem que abandonar a coca-cola, então ele segue as opiniões e condena a minoria que não segue.
  2. Há alguns que são escravos das imposições das outras pessoas. São os crentes acomodados. Se o fulano falou que todos devem agir de um jeito, ele simplesmente se acomoda. Ele não quer gastar o tempo pesquisando para saber se aquilo é verdade. Ele não quer ter o trabalho de pesquisar o que a Bíblia fala sobre aquilo. Ele não quer ter o encargo de discutir as opiniões dos outros. Ele quer ficar tranqüilo. Ele não quer ser importunado. Ele não quer arrumar confusão para o seu lado. É muito mais fácil aceitar todas as coisas sem pesquisar, quer sejam verdadeiras ou não. É muito melhor pregar o que todo mundo está pregando. É muito melhor fazer o que todo mundo está fazendo. É muito mais fácil agir como todo mundo está agindo. Segundo o seu pensamento, é muito melhor deixar as coisas acontecerem por si mesmas.
  3. Ainda há outros que são escravos das pressões externas. Se existe alguma pressão externa, ele logo muda de opinião e de atitudes. Se ele está solteiro por muito tempo, e não consegue encontrar um cônjuge dentro da igreja, então, ele, logo, muda o seu discurso. Diante das pressões das pessoas e da sociedade, que fazem chacota da solteirice, ele começa a pregar que não há qualquer problema de se conseguir casamento com um não crente. E diz que o convívio vai santificar o incrédulo. As pressões da sociedade sobre a sua solteirice o fazem mudar o seu discurso. Ele não muda de discurso por convicção. Ele muda por pressão. Se as pressões externas o influenciam a tomar uma certa atitude, ele logo se entrega.

 

A luta de Paulo era contra esse tipo de pensamento dentro da igreja: esse pensamento dominador, controlador, manipulador. Esse pensamento que transforma os homens livres em máquinas; que coloca todas as pessoas numa mesma forma e exige que todas ajam da mesma maneira. Por isso, Paulo olha para si mesmo e chama os outros a terem-no como exemplo. Ele afirma que é livre de todas as pessoas.

Na sua pregação, no seu testemunho de vida, ele é livre de todas as opiniões, imposições e pressões. Ele não é obrigado a abrir mão das convicções que ele tem. Ele não é obrigado a se sujeitar a essa ou aquela idéia por medo, ou receio ou por política. Ele não é obrigado a fazer isso ou aquilo porque um grupo afirma que esse é o certo.

Antes, pelo contrário, porque ele é livre, ele é livre para pregar e para testemunhar Cristo diante de quaisquer pessoas e em quaisquer situações. Porque ele é livre, ele pode fazer tudo o que for necessário para pregar o evangelho, sem se preocupar se o grupo A ou B não vai concordar com as suas atitudes. Na sua pregação do evangelho, no seu testemunho do dia-a-dia, ele não tem que ficar pisando em ovos, imaginando que alguns possam não gostar da atitude que ele está tomando.

Exatamente porque ele é livre, ele pode se tornar escravo de todas as pessoas, sem ter que dever coisa alguma a ninguém. Porque ele é livre, ele pôde dizer:

 

Tornei-me judeu para os judeus, a fim de ganhar os judeus. Para os que estão debaixo da Lei, tornei-me como se estivesse sujeito à Lei (embora eu mesmo não esteja debaixo da Lei), a fim de ganhar os que estão debaixo da Lei. Para os que estão sem lei, tornei-me como sem lei (embora não esteja livre da lei de Deus, e sim sob a lei de Cristo), a fim de ganhar os que não têm a Lei. Para com os fracos tornei-me fraco, para ganhar os fracos. Tornei-me tudo para com todos, para de alguma forma salvar alguns. Faço tudo isso por causa do evangelho, para ser co-participante dele” (1Co 9.20-23).

 

Porque ele era livre, ele poderia se envolver com os judeus e pregar para os judeus, sem se preocupar se os gentios iriam ficar com raiva dele. Porque ele era livre, ele poderia colocar-se como quem estivesse sujeito à Lei, sem se angustiar se algumas pessoas se virassem contra ele. Porque ele era livre, ele poderia tornar-se fraco para conquistar os fracos, sem se preocupar se outros não fossem se agradar daquela atitude. Porque ele era livre, ele não estava sujeito àquilo que as pessoas poderiam pensar acerca dele. Ele estava sujeito apenas ao evangelho e não aos pensamentos que as pessoas tinham disso ou daquilo.

Da mesma maneira que Paulo, se você se chama cristão, você precisa ser livre. Apenas os cristãos é que têm poder para ser livres. A liberdade é para você, que é crente. Você precisa ser livre para seguir o evangelho; livre para testemunhar Jesus, livre para não se deixar manipular pelas pressões de outras pessoas, que querem controlar a sua vida.

Se, por causa do evangelho, os missionários esvaziaram a festa do deus sol do seu significado anterior e usaram a data para anunciar o nascimento do Sol da Justiça (Lc 1.78), Jesus, e, com isso, eles conseguiram instruir os novos convertidos pagãos acerca do amor de Deus, que bênção! Milhares de pessoas foram alcançadas e transformadas pelo poder do evangelho porque os cristãos se importaram em construir pontes para comunicar a mensagem.

Se, por causa do evangelho, você utiliza a data global em que o Natal é comemorado para anunciar Jesus, anuncie! Enfeite a sua casa, prepare uma árvore, compre presentes e chame a atenção das pessoas para o amor de Deus revelado em Jesus. Aproveite a ocasião para testemunhar a sua vida em Cristo. Participe das reuniões em família, brinque com as pessoas, ria das histórias engraçadas. Deixe a luz do Senhor brilhar através da sua vida. Não se deixe escravizar pelas imposições de outras pessoas.

Como Paulo mesmo afirmou: “Faça tudo por causa do evangelho, para ser co-participante dele” (1Co 9.23).

 

Contudo, o apóstolo Paulo não concluiu a sua proclamação da liberdade nesse ponto. Aquele que se chama cristão não apenas é livre para pregar o evangelho, mas também é livre para não se submeter aos apetites da carne. A questão da liberdade não é apenas um assunto externo. Ela é também um assunto interno. Não adianta ser livre das opiniões das pessoas e das imposições dos homens, e ser escravo dos próprios apetites pecaminosos. Não adianta ser livre das pressões das outras pessoas e ser escravo do próprio pecado.

Ou, parafraseando as palavras de Paulo: “De que adianta participar da corrida, ser conhecido como um grande pregador do evangelho, e, no final, não ganhar o prêmio? Ser reprovado?”.Veja o que Paulo escreve nos vv 24-27:

 

Vocês não sabem que de todos os que correm no estádio, apenas um ganha o prêmio? Corram de tal modo que alcancem o prêmio. Todos os que competem nos jogos se submetem a um treinamento rigoroso, para obter uma coroa que logo perece; mas nós o fazemos para ganhar uma coroa que dura para sempre. Sendo assim, não corro como quem corre sem alvo, e não luto como quem esmurra o ar. Mas esmurro o meu corpo e faço dele meu escravo, para que, depois de ter pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado”.

 

Portanto, se você se chama cristão, você precisa ser livre

e

por isso, submeter os apetites pecaminosos à escravidão

 

O perigo apontado por Paulo é o de as pessoas participarem de um grupo e começarem a se deixar influenciar pelos pecados daquele grupo.

Há algum tempo atrás, um grupo de jovens decidiu ir pregar o evangelho no carnaval de Ouro Preto. Até aí, tudo bem. Os cristãos precisam ir até esses lugares para pregar o evangelho. Os cristãos precisam se envolver com essas pessoas para testemunharem Jesus. Contudo, ao invés de influenciarem os carnavalescos, os cristãos começaram a se deixar controlar pelos próprios apetites pecaminosos. O pecado começou a gritar dentro do coração daqueles cristãos. A carne começou a pressionar o desejo daqueles jovens. Ao invés de submeterem os apetites da carne, eles satisfizeram os apetites da carne. E aquele evangelismo foi um fiasco. Vários jovens deixaram de lado o evangelho e caíram na gandaia.

Mas precisamos ressaltar. Aqueles jovens já estavam na corrida. Diferentemente de alguns, que estavam assentados nas arquibancadas, por não quererem pregar o evangelho para os carnavalescos, aqueles jovens estavam participando da corrida. Eles estavam no caminho certo. Eles estavam fazendo a vontade de Deus. Eles estavam vivendo e proclamando a liberdade em Cristo. Contudo, eles se deixaram dominar pelos apetites pecaminosos. Eles não ganharam o prêmio. Eles foram reprovados naquela situação.

Portanto, não basta pregar o evangelho. É necessário também submeter os apetites pecaminosos à escravidão. Não basta ser livre. É necessário manter-se livre. As pressões internas também são tão fortes quanto as pressões externas. As pressões externas anunciam os desejos dos outros. As pressões internas anunciam os desejos da carne. Todas essas pressões querem escravizar os cristãos e apagar o poder do evangelho.

Por isso, os cristãos precisam tomar muito cuidado. Eles não somente devem descer das arquibancadas e participar da corrida, mas eles devem almejar conquistar o prêmio. Para isso, eles precisam submeter os apetites da carne e não deixar que a carne escravize a sua própria vida. Eles precisam continuar livres de escravidão para continuarem participando da corrida.

Contudo, muitas pessoas, hoje, estão escravizadas pelos apetites da carne.

  1. Há muitos que começaram a pregar para os colegas da escola. Começaram a participar das festas com os colegas. Mas foram displicentes. Foram negligentes em não disciplinar os apetites pecaminosos. Eles não submeteram os apetites pecaminosos à escravidão. Eles não fecharam os ouvidos aos clamores do pecado. E acabaram sendo escravizados. Pouco a pouco, ao invés de influenciarem, acabaram sendo influenciados. Ao invés de levarem as pessoas a mudarem o modo de falar, eles mesmos começaram a falar palavrões e a usar linguagem torpe.
  2. Há muitas moças crentes que começaram a se envolver com as amigas incrédulas. Contudo, elas não sufocaram os gritos da carne. Elas simplesmente fecharam os olhos para os próprios apetites pecaminosos. Elas desconsideraram a força da natureza pecaminosa existente em seus corações. Elas foram displicentes. E pouco a pouco se deixaram manipular pelo pecado. E então, ao invés de ajudarem as amigas a se vestirem de modo digno e honroso, elas começaram a se vestir de modo provocante e sensual. Começaram a se vestir como as amigas incrédulas. Satisfizeram o apetite pecaminoso da sensualidade. Deixaram-se escravizar pelo pecado da sensualidade.
  3. Há muita gente que começou a comemorar o Natal e se deixou perder nos apetites consumistas propagados pela mídia. Ao invés de usar a data como uma ponte para anunciar Jesus, o presente de Deus para o mundo, tais pessoas começaram a usar a data para satisfazer a concupiscência dos olhos e da carne, perdendo-se na glutonaria, no consumismo e nas brigas interpessoais.

 

O alerta de Paulo é para que os cristãos não fossem displicentes no tratamento da carne. Para continuar livre, cada cristão precisa fazer como Paulo: “esmurrar o corpo e fazer dele um escravo”. Porque o cristão está em liberdade, ele tem o poder de não se deixar sujeitar aos apetites da carne. Ele pode dizer não ao pecado. Ele pode rejeitar os apelos do pecado.

Porque você é cristão, você é livre para dizer não a uma proposta de promiscuidade. Você é livre para submeter os desejos da sua carne e impedi-los que levem você à prostituição. Você é capaz de negar qualquer proposta indecente.Você é capaz de manter a sua postura de cristão no meio dos promíscuos. Você tem poder para testemunhar diante de todos que o pecado não governa a sua vida.

Porque você é cristão, você é livre para negar uma proposta de suborno. Você pode dizer para as pessoas que o suborno é pecado e desagrada a Deus. Ainda que a sua carne esteja gritando e dizendo que você precisa do dinheiro, porque você é livre, você é capaz de não se sujeitar aos apetites da sua carne. Você é capaz de testemunhar Cristo diante das pessoas, mostrando que não precisa se comportar como elas.

Se você se chama cristão, você precisa ser livre e manter-se na liberdade para a qual Jesus chamou você. Aproveite, portanto, essa data para, na liberdade de Cristo, colocar-se como responsável para anunciar a todos que Jesus nasceu, morreu, ressuscitou, subiu aos céus e voltará!

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20/12

O que fazer com os pagãos?

Postado dia 20 de dezembro de 2015

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Gustavo Bessa.

Os irmãos estavam com sentimentos variados durante aquela reunião. Podia-se perceber um misto de alegria e de apreensão no ar enquanto Paulo e Barnabé contavam os maravilhosos feitos que Deus havia feito no meio dos gentios pagãos! “Centenas haviam abandonado a adoração aos ídolos e se convertido ao Senhorio de Jesus. Esses novos convertidos estavam cheios do fogo do Espírito Santo e proclamavam o evangelho de Deus com tremenda ousadia”, compartilhavam os apóstolos Paulo e Barnabé.

Contudo, nem todas as pessoas ouviam os testemunhos com o mesmo entusiasmo. O partido dos fariseus messiânicos estava cheio de apreensão com o que poderia acontecer com a igreja a partir da conversão desses gentios pagãos. Eles entendiam que, para manter a igreja pura e protegida, os novos convertidos deveriam se circuncidar e guardar toda a lei de Moisés com as suas prescrições relacionadas aos alimentos, às festas, aos dias sagrados e tudo o mais. Pela primeira vez, a igreja enfrentava um problema que requeria uma reflexão teológica: “O que fazer com os pagãos?”

Até então a igreja tinha sido primariamente formada por judeus que reconheciam que Jesus era o Messias. Esses primeiros cristãos guardavam praticamente intactos os elementos da sua própria cultura judaica – a língua, as festas, os sábados e as tradições, relendo, todavia, as profecias e as promessas com as novas lentes do evangelho de Jesus Cristo. Por ser um judeu-cristão, por exemplo, Paulo celebrava as festas judaicas. Na ocasião em que foi preso, ele estava em Jerusalém, participando em uma das festas judaicas.

Entretanto, esse mesmo Paulo, que guardava as tradições judaicas, se indignou com a sugestão do partido dos fariseus! Ele entendia que os judeus quando se convertem a Jesus devem manter a cultura judaica; mas os gentios pagãos quando se convertem a Jesus não devem absorver a cultura judaica! O evangelho de Jesus não está aprisionado aos elementos culturais do Judaísmo como defendiam os fariseus cristãos! “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5.1), Paulo escreveu aos cristãos da Galácia anos depois desse Concílio em Jerusalém.

Paulo pôde escrever essas palavras aos cristãos da Galácia porque os líderes da igreja primitiva fizeram teologia e história quando se depararam com o problema dos pagãos (At 15). Eles entenderam que o evangelho de Jesus não está aprisionado a nenhuma cultura em particular. Mesmo tendo nascido dentro da cultura judaica, o evangelho não é escravo dos elementos culturais do lugar onde nasceu. O evangelho é poderosamente supracultural! Os judeus podem reler e redimir os diversos elementos da sua cultura na sua adoração a Jesus; e da mesma maneira os gentios podem reler e redimir os inúmeros elementos das suas culturas quando adoram a Jesus.

Quando as pessoas não entendem a supraculturalidade do evangelho, elas valorizam intensamente a cultura do lugar de onde receberam as boas novas. Por isso, elas colocam ternos de lã nos sertanejos, tocam músicas com piano clássico nos cultos dos baianos e excluem a movimentação do corpo nos cultos africanos. Elas exaltam e santificam uma cultura em particular, mas desprezam e demonizam a cultura das outras pessoas.

Mas, graças a Deus pelos primeiros líderes da igreja, os judeus Pedro, Tiago, Paulo, Barnabé e outros! Se o partido dos fariseus cristãos tivesse vencido aquele debate em relação aos gentios cristãos não existiria a beleza da diversidade cultural na igreja global. Todos falaríamos o mesmo idioma, vestiríamos as mesmas roupas, teríamos a mesma liturgia nos cultos, usaríamos os mesmos instrumentos musicais e precisaríamos gostar das mesmas comidas.

Obs.: No próximo post tratarei dos limites da liberdade.

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18/12

Natal é Paganismo?

Postado dia 18 de dezembro de 2015

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Por Gustavo Bessa

Nesses últimos dias, eu tenho lido alguns comentários que têm sido feitos sobre a comemoração do Natal. A maioria das pessoas condena a comemoração do Natal, dizendo que Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro e que o Natal é uma festa de origem pagã. De fato, Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro, pois, uma vez que os pastores estavam guardando as ovelhas no campo aberto, só podemos concluir que Jesus não nasceu no inverno!

 

Sabe-se também que os pagãos comemoravam o nascimento do deus sol no dia 25 de dezembro, e que os cristãos fizeram uma releitura dessa data para ensinar aos pagãos que Jesus, o Filho de Deus, o Sol da Justiça, desceu dos céus e sobrenaturalmente nasceu de uma virgem. Os cristãos, portanto, esvaziaram o significado do deus-sol e atualizaram o significado do dia 25 de dezembro, usando essa data como uma ponte para anunciar o evangelho.

 

Entretanto, muitas pessoas questionam essa atitude dos cristãos! Dizem que, porque o dia 25 de dezembro era, anteriormente, uma data em que se comemorava uma festa pagã, não podemos celebrar o nascimento de Jesus nessa data. Eu estranho esse tipo de comentário, pois ele me parece ser muito mais islâmico do que cristão. O islamismo é que impede os muçulmanos de fazerem qualquer tipo de contextualização da mensagem. Tanto assim que o islamismo só considera como palavra de Deus o Alcorão escrito em Árabe. Para eles, Deus não fala outra língua, senão o Árabe.

 

Mas nós cristãos cremos de maneira diferente. Cremos que Deus não está limitado ao Hebraico. Deus se comunica em Hebraico, Aramaico, Grego, Latim, Português, Inglês, Chinês e tantas quantas forem as línguas do mundo. Cremos que podemos contextualizar a mensagem para que as outras pessoas entendam o que comunicamos. Cremos que muitos elementos de culturas pagãs podem ser esvaziados de seus antigos conceitos e podem ser atualizados, recebendo conceitos cristãos.

 

Dessa maneira o povo de Israel construiu o Tabernáculo no deserto! Eles usaram o ouro, a prata, o bronze, as pedras e os tecidos que os pagãos egípcios lhes haviam dado. Eles pegaram esse material, que antes era pagão, e usaram esse material para construir a Tenda do Encontro! Eles esvaziaram esse material do conteúdo anterior e atualizaram esses objetos com novos conceitos!

 

Dessa maneira, usando a contextualização, ao entrar na terra, o povo de Israel fez uma releitura das festas pagãs. Os pagãos celebravam a festa da colheita, a festa dos primeiros frutos e daí por diante! O povo de Israel não ignorou e desprezou essas datas. Antes, os israelitas esvaziaram essas festas dos seus conteúdos pagãos e atualizaram, por causa de Deus, o conteúdo dessas festas, introduzindo a mensagem salvífica do Senhor nesses momentos! Muitas festas do povo de Israel são, na verdade, releituras de festas pagãs.

 

Mas alguém pode dizer: “Isso aconteceu no Antigo Testamento! Mas o que o Novo Testamento tem a dizer sobre isso?” Em que língua o Novo Testamento foi escrito? Hebraico? Aramaico? Não! Grego! Uma vez que Deus quer que todas as pessoas ouçam o evangelho, Ele decidiu contextualizar a mensagem e proclamar o evangelho não na língua que Jesus falava, mas na língua que a maior parte da população falava! Assim, Paulo fez uma releitura de diversos termos gregos. Ele utilizou palavras gregas que eram usadas nos cultos pagãos, esvaziou esses termos dos seus antigos conceitos, introduziu conceitos cristãos àquelas palavras e, com essas palavras atualizadas, ele pregou o evangelho! Ele não desprezou ou ignorou essas palavras, mas usou-as como pontes para anunciar o evangelho!

 

Contudo, o maior exemplo de contextualização é Jesus. Ao invés de permanecer falando-nos do céu ou do alto de uma montanha fumegante, Deus assumiu todos os limites e fragilidades de um corpo humano (menos o pecado) com o propósito de nos anunciar o evangelho da graça e da verdade. O Verbo se fez Carne e habitou entre nós! Deus não destruiu pontes, mas usou-as para que nós conseguíssemos ouvir e entender a mensagem do evangelho. Assim, Jesus nasceu em uma manjedoura, passou alguns anos no Egito, cresceu como carpinteiro em Nazaré, viajou pelas estradas romanas, visitou cidades pagãs (Decápolis), comeu com publicanos e pecadores, conversou com as pessoas, usou o dinheiro de Roma para pagar os impostos e nos fez conhecer o evangelho de Deus. Deus trouxe dignidade ao ser humano e usou os diversos elementos da cultura (língua, objetos, artefatos etc) para nos fazer conhecer a mensagem da salvação.

 

Vendo o modo como Deus sempre agiu no mundo em relação aos povos e as culturas, eu não entendo como tantas pessoas questionam a comemoração do nascimento de Jesus no dia 25 de dezembro! Ou elas ignoram o modo como Deus agiu no mundo, em relação ao uso das culturas, para proclamar o evangelho. Ou elas não aceitam que se use a cultura como ponte para anunciar a mensagem de Deus; e, assim, elas mesmas, por causa disso, só conversam em Hebraico.

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11/12

O Natal

Postado dia 11 de dezembro de 2015

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Por Gustavo Bessa

 

Há alguns anos, muitas pessoas têm falado contra o Natal. É uma enxurrada de ataques contra a comemoração natalina. “É uma festa pagã”, dizem uns; “Jesus nunca ordenou ninguém a festejar o seu nascimento”, falam outros. E, assim, dentro da igreja, a comemoração do Natal tem sido relegada ao esquecimento e rechaçada por alguns cristãos. E ai daqueles que defenderem o Natal perto dessas pessoas: são logo massacrados com uma infinidade de argumentos. Começou até mesmo a existir uma divisão dentro da igreja. Surgiu o grupo dos que são a favor da comemoração e o grupo dos que são contra o Natal.

 

Confesso que, para mim, grande parte dessas discussões têm origem em uma hipocrisia farisaica. Penso que se alguns desejam comemorar o Natal, glória a Deus; e , se outros não querem, glória a Deus! Se uns desejam cantar hinos de Natal, Aleluia; e se outros não querem cantar, Aleluia! Se uns desejam colocar árvores enfeitadas em suas casas, para o Senhor estão fazendo isso; e, se outros não querem, para o Senhor estão fazendo isso! Infelizmente, tem muita gente coando o mosquito e engolindo o camelo. Condenam a comemoração do nascimento de Jesus e atacam os seus irmãos por quem Jesus nasceu e morreu. Levantam a bandeira da não-comemoração do Natal e falam mal dos outros que decidiram comemorar. Incham-se pelo conhecimento que julgam ter, consideram-se melhores do que os outros, praticam a maledicência, promovem disputas, guardam ódio no coração, ficam ressentidos e provocam a divisão dentro da igreja. “Acaso Cristo está dividido?” pergunta-nos o apóstolo Paulo. Côa-se o mosquito e engole-se o camelo.

 

Há gente que condena a comemoração do Natal com o argumento de que Cristo não nos ordenou comemorar o seu nascimento. De fato, Cristo não nos ordenou comemorar o nascimento dEle. Mas porque Cristo não nos ordenou comemorar o nascimento dEle, nos é proibido fazer essa comemoração? Cristo também não nos ordenou comemorar dia dos pais, dia das mães, dia das crianças, festa de aniversário, festa da colheita, festa de consagração disso e daquilo e um montão de outras coisas. Essas outras coisas que fazemos estão erradas porque Cristo não nos ordenou fazê-las? Por outro lado, Jesus nos proibiu de fazê-las? Se Jesus não nos proibiu fazer essas tantas coisas, estaríamos errados em fazê-las? O problema é que muita gente tem coado o mosquito e engolido o camelo.

 

Alguns condenam a árvore de Natal. Usam, fora do contexto, para sustentar o seu argumento, o texto de Jeremias 10.4, que diz: “Os costumes religiosos das nações são inúteis: corta-se uma árvore da floresta, um artesão a modela com seu formão; enfeitam-na com prata e ouro, prendendo tudo com martelo e pregos para que não balance”. Em primeiro lugar, esse texto não está falando da árvore de Natal, e, sim, dos ídolos que as pessoas esculpiam a partir das madeiras das árvores. Em segundo lugar, eu nunca vi ninguém se ajoelhando diante de uma árvore de Natal, imaginando que essa árvore fosse um deus. Além disso, quanto aos enfeites da árvore, qual é o problema de se enfeitar uma árvore? Não se enfeitam casas? Não se enfeitam carros? Não se enfeitam cidades? Não se enfeitam pessoas? Entretanto, muitos levantam a bandeira contra a comemoração do Natal e se esquecem de tudo o mais. Engole-se o camelo e se côa o mosquito.

 

Mas alguém pode dizer: “Mas Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro”. É verdade que Jesus não nasceu no dia 25 de dezembro; mas também é verdade que Jesus nasceu! Uma vez que Jesus nasceu, por que não se pode celebrar o Seu nascimento? Só porque a data está errada? Quem nunca comemorou o próprio aniversário fora de data? Polemizar por causa de uma data, as pessoas acham que é importante; mas falar contra as disputas, as competições, as brigas e as divisões entre os próprios irmãos, por quem Jesus nasceu e morreu, poucos são os que se prontificam. Côa-se o mosquito e se engole o camelo.

 

Sei que há muitas outras coisas que poderiam ser ditas. Mas eu queria apenas aproveitar essa ocasião para falar sobre o Natal e lembrar a todos de que se queremos coar o mosquito, que não engulamos o camelo.

 

 

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04/12

O Texto fora do Contexto…

Postado dia 04 de dezembro de 2015

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Por Gustavo Bessa

No século III d.C., um jovem teólogo, atormentado pelas tentações que lhe angustiavam o coração, decidiu se castrar. Ele acreditava que aquelas suas tentações cessariam se ele se mutilasse. Ele não somente não se livrou das tentações como também não pôde ser ordenado sacerdote por causa daquela mutilação.

Orígenes, esse jovem teólogo, decidiu se castrar depois de ter lido alguns textos da Bíblia. Ao que tudo indica, ele foi inspirado por essas seguintes palavras de Jesus antes de tomar essa drástica decisão: “E se o teu olho o fizer tropeçar, arranque-o e jogue-o fora. É melhor entrar na vida com um só dos olhos do que tendo os dois olhos ser lançado no fogo do inferno” (Mt 18.9) e “outros ainda se fizera eunucos por causa do Reino dos Céus” (Mt 19.12).

Eu não sei se Orígenes se arrependeu da sua decisão e nem se outras pessoas decidiram se castrar por causa do exemplo dele. Mas eu sei que textos que são lidos fora do contexto são perigosos! Muita gente se fere e fere outras pessoas porque leem e ouvem textos fora dos contextos. Além disso, muitas pessoas, que são más, publicam textos fora dos contextos com o único pretexto de provocar polêmicas e divisões. Precisamos rejeitar as ações dessas pessoas “mãos de tesouras”, indivíduos que mutilam os textos e que, cortando os textos, tentam mutilar os escritores e os leitores. Muita gente se mutila e se perde porque aceita como verdade um texto fora do contexto. Tais pessoas, tendo sido enganadas, promovem o engano sob o pretexto de estarem fazendo um bem maior!

Mas e Orígenes? Orígenes se dedicou a estudar a Bíblia e a escrever as suas interpretações das Escrituras. Segundo Eusébio, um historiador dos primeiros séculos da era cristã, Orígenes escreveu mais de 2000 obras. Epifânio, um outro estudioso da época, disse que Orígenes escreveu mais de 6000 obras! Contudo, na maioria de suas obras, Orígenes pareceu também mutilar o texto sagrado. Ao invés de considerar o contexto dos textos, ele inventava intepretações alegóricas e fantasiosas para cada texto que lia. Dessa maneira, onde se lia “cavalo” dever-se-ia entender “voz”; onde se lia “fermento” dever-se-ia entender “ensino”; e onde se lia “nuvens” dever-se-ia entender “santos”. Nas complicadas interpretações mutilantes de Orígenes, quase tudo valia como pretexto, menos o contexto do texto.

No fim, a maior parte dos escritos de Orígenes foi considerada herética pela igreja. Mesmo sendo poéticos, belos, chamativos e polêmicos, eles foram rejeitados. Ao invés de trazerem o texto dentro do contexto, eles se tornaram pretexto para que as pessoas provocassem divisões.

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